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quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Conto romântico/fantástico/espirita: SONHO MEU

                                                                  

                                                                   Pedro Samuel de Moura Torres

        



        

                    O sonho
 

  

Desde seus seis anos de idade, Moema sonhava sempre com um garoto de aspecto caucasiano e familiar em seus trejeitos. Era a quarta e filha caçula do cacique da tribo, Apurinâ. Localizavam-se ao norte do rio Amazonas. Conhecidos como uma das tribos mais arredias e isoladas da civilização moderna. Contato com o “homem branco” era apenas relatado e consolidado em estórias e lendas. Em seus encontros, ao redor da fogueira; a avó de Moema, Dona Jurema, registrava fábulas misteriosas e fascinantes. Muitas dessas estórias eram sobre possíveis visitas de seres estranhos, vindos de inexploráveis e desconhecidos mundos. Moema, uma curumim muito esperta e curiosa, se interessava e se deslumbrava por aqueles contos. Tentava materializar em sua imaginação um possível mundo desconhecido.

Um dia, num ritual aborígene de pajelança, num tom leve e contemplador, Moema relata a sua amiga mais íntima, Iracema.

- Hoje, tive um sonho...

- Hum! Que legal! Todavia, o difícil é saber quando é que você não está sonhando!

Caçoa Iracema.

- Dessa vez pareceu algo mais serio...Hum...Talvez mais nítido. Reconheço ser uma grande sonhadora, e que a presença de alguém persiste em todos eles. Mas nunca sonhei com tanta intensidade.

- É com o garoto de sempre? Um que você disse ser estranho. Um que é parecido com os mitos que a sua avó conta?

- Sim!...Exatamente o mesmo. E eu acho que sonho com o tal do “homem branco”, como conta a minha avó. 

- Hum! Será? ... Bem!... Então como pode sonhar com alguém que você nunca viu em toda a sua existência?

- É...Boa pergunta!... Não tenho nenhuma resposta lógica. Mas havendo todo o legado místico da nossa tribo, podemos encontrá-la.

- Possivelmente. Mas poderia descrever com detalhes esse sonho? Você estava atuando ou você foi apenas uma expectadora?

Moema conseguira despertar a atenção e interesse de sua amiga. Tomada por um estado de introspecção absorta, Moema, pensativa e confusa, se despista do diálogo. Seu pai, o cacique, ao perceber a desconcentração e dispersão da filha, julgou estar acontecendo alguma mudança natural. Afinal de contas, Moema não era mais uma criança. “Considerando que seu matrimônio havia sido premeditado desde o seu nascimento, ela poderia está refletindo a respeito.” Pensou o Cacique.

Retomando o assunto. Moema responde:

- Bem lá no cume da floresta, ao norte do Rio, entre tantas belezas de faunas inumeráveis, eu estava a observar as onças que caçavam; quando subitamente, eu o vi.

- Então...? Como ele era? O que fazia? Continue!

- Estava trajado com uma vestimenta estranha, nunca havia visto! Com um objeto diferente em sua cabeça. Possuía cabelos como a luz do Rei Sol, os olhos como a imensidão do céu. Sua pele brilhava ao toque do Rei, ofuscando minha visão.

- Nossa! Quanta emoção! Até me arrepiei! Realmente a descrição feita é similar às estórias. A resposta mais coerente é que você provavelmente, dada tão aos devaneios e fantasias, você foi quem conseguiu ir mais além. Você viu e imaginou o homem branco tal como se conta.

Terminado o ritual. O Cacique Apurinã dirigiu-se a filha e lhe questionou.

- Moema! O que te aconteceu? Você e sua amiga não prestavam atenção ao ritual. Vocês têm que observar e participar para aprender a aplicar os métodos curativos.  

- Pai, Estava relatando o sonho que tive com o suposto homem branco.

Carregado com ar irônico, seu pai rejeita seu sonho.

- Que homem branco que nada! Você nem sabe se eles existem de verdade.

Moema com uma nuance mais alterada e voz firme, contesta:

- Mas a vovó diz que sim. E o vi justamente como ela disse. Posso consultar o Pajé para saber se existe alguma explicação para esses sonhos?

Apurinã com a voz autoritária e conclusiva finaliza:

- Já disse que não! Isso pode ser perigoso. Não podemos consultar os espíritos pra coisas infantis e inúteis.

A indiazinha pôs-se a chorar. Lamentava a rudeza e frieza com que seu pai havia tratado a sua intimidade e o seu mistério.  

Curiosamente e emblematicamente Moema nascera com um sinal que parecia um coração no lado esquerdo do peito. E misteriosamente, em períodos, ela era acometida por dores no peito aparentemente de caráter emocionais, mas que ninguém entendia.

Num dado dia, quando Moema já avançava aos quinze anos, sendo prometida a Acauã, o filho do Pajé, em fase de conhecimento íntimo com seu atual noivo, lhe convenceu de que precisava de uma consulta com o seu pai. Moema dirigiu-se a opy (tenda de rezas e de rituais sagrados), conduziu-se ao pajé e lhe pediu que perguntasse aos espíritos quem seria a pessoa que sondava sempre seus sonhos. O pajé Tacumã relutou, a princípio, mas acabou cedendo.

No ritual em que se invocavam espíritos, o pajé aparentemente inconsciente, transfigurou-se, olhou pra a índia e disse:

- Aquele pássaro de luz transparente que vistes e vês em tuas quimeras...É a tua alma gêmea. A reencarnação passada do seu noivo atual.

Moema indaga:

- Mas porque além de serem tão distintos fisicamente, eu não senti nada tão deleitoso com o meu noivo atual como eu senti com aquele do meu sonho? E muito pelo contrário, ele me faz me sentir mal.

Tacumã, esperto que era, não quis descasar seu pobre filho e condená-lo a humilhação de ser rejeitado pela esposa. Desviou a verdade, aquela que os espíritos lhe haviam de fato revelado.

Entretanto, Moema não desistiu, permaneceu fiel ao seu coração.

 
 
O encontro

 

Nas espessas montanhas de densas árvores, de uma clorofila extensa que devorava todo o território; o sol saindo de um amarelo leonino para um rubro alaranjado, em sua jornada cotidiana, se fixava ao horizonte. Nesse lindo crepúsculo, em um dia antes da cerimônia do seu casamento, um momento assim contemplativo, Moema encontrava-se cheia de dúvidas e enigmas. Ela se olhava ao reflexo do rio, o sol se despedindo. A lua lânguida e formosa em toda a sua repleta exuberância, ostentava-se no céu, saudando em sua chegada. Brilhava. Límpida. Melancólica. Nostálgica. O rio lambendo o reflexo projetado pela lua formava um caminho entre as águas fluentes. Uma sensação de êxtase repentino; após algum tempo de olhos fechados. Escutou uma voz que lhe tocava como uma música suave, doce e que sensualmente a seduzira.

- Hei! Bela jovem! Que fazes aqui a estas horas?

Moema, tímida e esquiva, se afastou abruptamente e não entendia o seu falar, contudo compreendeu-o com a linguagem da alma. Ao levantar as pálpebras, deparou-se com o rapaz dos seus sonhos, uma súbita e aprazível empatia os envolvia. Amor à primeira vista, embora junto a isso lhe abordava também um sentimento de dor. Entreolharam-se, com faíscas estrelares que cintilavam dos seus olhos. Conceberam-se íntimos. Era o filho de um colonizador daquelas terras, território ainda virgem, mas que com tantos mistérios e belezas idílicas inspiravam e irradiavam amor, romance e tudo que se refere ao paradisíaco e extraordinário.

O loiro português arrebatado pela paixão que a sua visão lhe permitiu ao captar aquela imagem que diretamente atingia suas emoções, a figura da bela e contemplativa morena, foi o bastante para manifestar o amor do qual cada criação divina é constituída.

Naquele momento extasiados pelo amor a primeira vista, foi um marco em suas vidas, e principalmente para a índia que por ser ainda mais espiritualizada, já conhecia aquele semblante através de seus sonhos. O português se aproximou, segurou sua mão e ainda que Moema se encontrasse eclipsada e comovida pelo medo e insegurança, o sentimento que escondia em seus peitos foi maior que quaisquer outras intervenções.

Algo genuíno e misterioso circundava aquele encontro, parecia destino ou até mesmo reminiscências de outras vidas. Ao segurar suas mãos, ao primeiro contato, uma emoção subiu e foi tomando seus braços como se aquela energia ascendesse uma chama invisível em seus corpos. A chama do amor que de tão intensa os amedrontava, já não se sabia usar a razão, toda racionalidade perdia seu sentindo e as emoções transbordantes se dilatavam em suas existências conduzindo-os a um vale de mistérios.

Num lapso de inconsciente temor e perplexidade, Moema retira sua mão e se afasta, mas seus olhos não conseguem se deixarem. Hesitando, ao tentar se racionalizar e repudiar o coração, ela fugiu subitamente deixando-o perplexo e perdido sem reação. 

O europeu se questionava o que teria lhe acontecido, como algo que surpreende o coração poderia provocar e intrigar tanto a mente? Encontrava-se em um dilema, em um mistério que precisava ser sondado e resolvido. Sua mente lhe repelia e lhe reclamava por uma resposta lógica e coerente, mas aquela doce e bela emoção só lhe possibilitava a confusão e o caos de um vazio racional sem respostas. A mente se conflitava por não apreender o sentido daquele sentimento tão perfeito.

 Acometido por sensações intensamente elevadas, o português Pedro retorna a casa com o ar muito enigmático e com a cabeça tumultuosa, lhe resultando em uma vertigem significante. Pedro retorna a casa e dialoga com seu pai sobre o ocorrido.

- Pai, eu encontrei uma nativa lá no Rio e acho que me apaixonei! Ela era de uma beleza tão natural e pura que jamais vi mulher assim em minha vida!

- Hum! Estais de olho nas nativas hein? Realmente são belíssimas, possuem um tom de pele deslumbrante e curvas que provocam qualquer mortal e quem sabe até mesmo os imortais.

- Mas pai, não estou falando de sexo! Acho que me apaixonei de verdade, não vislumbrei desejos libidinosos e carnais, mas anseios do espirito. Foi uma sensação incrível tê-la perto de mim naquele instante, jamais esquecerei. Foi como se a plenitude total me visitasse naquele momento, como se nada mais no mundo existisse além de nós. Me sentia em um estado de êxtase contemplando a perfeição absoluta.

- Ah meu filho! Andas lendo muito romance, e ai fica com a cabeça cheia de miolos moles e sonhadores. Cai na real! Ela é uma selvagem, não entende nada da vida, não fala sua língua, não sabe o que é o amor, não compreende nosso modo de ser, é praticamente um animal que precisa ser domesticado, um bicho do mato. Como ela poderá te amar assim como esperas?

- Pai, como você é preconceituoso! Ela também sente como agente, ela tem emoções, tem entendimento, tem capacidades, só vivemos em mundos de códigos distintos. E eu tenho certeza que o sentimento foi reciproco, percebi em seus olhos, emoções foram comunicadas em nossa troca de olhar e eram intensas e profundamente afetuosas. A sua energia tocava fogo em meu corpo e em minha alma, centelhas da chama do amor estalavam em minha cabeça, pude ver estrelas, pude viajar nas constelações da imensidão do universo e sentir como é o paraíso, enfim ela despertou o meu eu lírico e poético que estava adormecido.

 - Pedro, nunca ti vi assim tão sentimentalista, tão romântico, cuidado que o mundo não cabe para os românticos, muito deles nunca se satisfazem e acabam tirando suas vidas. São eternos inconformados e insatisfeitos e não logram a adaptarem-se às exigências desse mundo real e cruel. Tome cuidado! Pois não estais no seu coração para saber se o que de veras sentes é mútuo, já que pode acabar se machucando. Não seja um desses idealizadores que vivem a se desiludir por aquilo que imaginam ser quando na verdade não passa de fantasias do seu próprio ego.

- Nossa pai! Que sermão! “Estou muito agradecido por todo o seu incentivo, me entusiasmou bastante, vossa pessoa realmente sabe incentivar com muito otimismo. Encheu meu coração de alegria e esperança, vou contar sempre com o seu estímulo, muito grato!”

- Não é isso filho! É que sou mais vivido que tu e, portanto, tenho mais conhecimento, sei das possíveis decepções e desilusões que a vida pode te trazer e com isso te amargurar até desejar a morte. Isso tudo pode acontecer se não souber viver com os pés no chão. Tem de estar em contado com o verdadeiro real e não com o que é real apenas em seu coração. Sentimentos confundem e enganam. Seja mais racional para não ser manipulado e pisoteado, use a sua mente, é para isso que ela serve.

- Com isso você quer menosprezar o coração. Já parou para observar que as pessoas altamente racionais tendem a ser pessoas frias e amargas, que não tem afeto, que ninguém se sente bem ao lado, que são solitárias e não conhecem o que é alegria. Pois te digo que a felicidade é bem simples e somente o coração tem a chave dela. A mente é fechada para a subjetividade, ela sufoca e limita o que o teu coração sabe e deseja.

 - Ah, agora vamos dialogar sobre o dilema que acomete todos os seres humanos: a razão e a emoção, a mente e o coração. Parecem bem antagônicos e irredutivelmente adversos, mas são do que nós humanos fomos criados. A cabeça jamais entenderá o que o coração sente, eles são bloqueados um para o outro. A mente busca razões para os sentimentos e nunca acha, pois os mesmos derivam de um mistério natural que desconhecemos.

- Exato pai! Agora você parece me entender. Os animais, por exemplo, são felizes sem os nossos dilemas e conflitos, porque a eles foi concedido apenas o coração, a razão lhe foi poupada, o que é um atributo exclusivamente humano. Desse modo, não se faz necessário que entenda com a minha mente o que meu coração sente, mas aceitá-lo e ter coragem de vivê-lo mesmo que possa se decepcionar.

- Filho, eu sinto muito! Mas cansei de filosofar sobre algo que, como tantas outras questões da esfera humana, nunca se chega a um consenso. Mas tudo que posso te desejar é muita sorte e que sejas corajoso para enfrentar as iminentes tempestades que a vida nunca cansa de surpreender. Seja forte e nunca deixe se perder nos dilúvios da vida!

- Ok pai, obrigado! Creio que tenho uma missão a cumprir, a arte do amor.

- Parece simples essa missão. Mas acho que é a mais difícil de todas, por seu caráter altamente subjetivo.

Após o diálogo densamente filosófico-intelectual sobre o amor, Pedro decide desbravar aquelas tribos que escondiam tantos segredos e que lhe pareciam um outro mundo por conta de toda aquela diferença cultural e digamos quase uma distinção cosmológica.

Na tribo, Moema conta o ocorrido somente a sua amiga confidente. E juntas concluíram ser uma resposta bem óbvia para todos os seus sonhos. Apesar disso, ela não sabia o que fazer, como agir, como lidar com uma situação de tamanha complexidade.

- Eu encontrei de verdade o homem branco dos meus sonhos, só que ele estava mais amadurecido e me pareceu um encontro de almas conhecidas. Tive sensações que mexeram lá no mais profundo do meu íntimo. Minha alma vibrava em uma magnitude intransigente, o coração disparava e me tirou todo o meu controle. Já não sabia como reagi, pois a emoção era avassaladora. Perdi o fôlego, e me abafei naquele estado de êxtase irrefreável. Um estado de embriaguez sem a presença de qualquer substância química, apenas florescia uma substância invisível que impregnava toda a minha consciência.

- Que caso surpreendente! E você tem certeza que era o mesmo? Pois você disse que ele estava mais velho, pode ser que esteja confundindo! Bem! O fato aqui é que você descobriu que não eram somente lendas nem sonhos. Mas pode ser um espirito da floresta que quer te enganar. Há tantos mistérios nesse universo que eu não sou capaz de imaginar. E pelo que você conta foi um encontro bastante romântico, você se apaixonou?

- Você ainda pergunta? Ele tocou lá no fundo, mesmo em uma situação assim insólita e excepcional na qual me apareceu um ser de outro mundo. Talvez um espirito da floresta como você mesma disse, mas foi incrível! Não sei nem como te posso descrever a sensação!

- Eu sei que você buscou respostas com o Pajé e o que ele te revelou?

- Ele me deu uma resposta que só me deixou ainda mais confusa. Ele quis me dizer que o garoto que eu sonhava era o filho dele que eu supostamente irei me casar. Eu não me sinto feliz ao lado dele. Sofro muito e sei que com ele serei muito infeliz. Sinto uma dor horrível quando estou com ele. Como eu posso me casar assim se eu não o amo?

- Dizem que o amor se conquista com o tempo. O sentimento pode ser construído com a convivência. Eu não entendo as coisas do coração, são muito misteriosos. Mas se o Pajé que sabe de tudo te falou isso, então acho que você não deveria contrariá-lo, pois ele é experiente e sabe o que diz.

- Me encontro em um momento da minha vida o qual não posso vacilar. Tenho que me encontrar, descobrir meu caminho, meu destino que desponta nebulosamente ao horizonte. Essa obscuridade é o que mais me incomoda, nada é claro e fácil. Tudo me confunde, me desvia, me desorienta. O que é a vida? Seria uma história criada e traçada por Algo maior? Ou a responsabilidade desse caminho é inteiramente nossa? Acredito que estamos comprometidos e somos os legítimos precursores das ações que podem ou não atingir e tanger todo o universo. E isso comprova o efeito baralho o qual estamos à mercê. Ou ainda mais presumível é que há uma interação entre nós e o Ser maior, para não impor sob nossas escolhas, Ele nos permite caminhos os quais a decisão nos convém unicamente. Ele indica, traça, de algum modo maneja as nossas possibilidades. Então como Ele sabe muito mais do que nós, nada mais me resta que aceitar o que Ele tem de melhor. O que eu na minha tola humanidade não enxergo e me perco como uma ovelha ingênua.

- Você alude à existência divina, e sabe que tudo aqui na terra pertence a Deus. Mas te levanto uma dúvida: se existe o acaso e também a intervenção divina, como saberemos distinguir qual é um ou outro? Acho que todo o bem sempre pertence a Deus, logo detectaremos a sua intervenção pelo fruto que será bom. Mas o que eu me questiono, às vezes, é: o desejo seu, pode ser contrasto ao desejo Dele? Como harmonizarem-se esses anseios? Como ouvir Sua voz? O coração seria o veículo o qual Ele nos comunica? Se tal, devemos sempre segui-Lo? O coração falha? O mesmo pode ser transporte e fonte de outras intervenções? A minha, a sua? A do Pajé? A de um espirito opositor? Como enxergar tudo que está acima de nosso campo de compreensão?

- Eu sei que o amor em si é substancialmente divino. Qual é a natureza desse amor? O segredo desse encontro? Seria escrito pela mão divina?

- Olha, você tem que descobrir na prática, não fique só teorizando, vá, sinta e conheça a veracidade desse evento com o seu coração, pois sua mente não te ajudará em nada nesse momento. E cuidado com o romantismo exagerado, ele pode te deixar lunática e incoerente. Intuição versus razão, só vivenciando para desvendar algo; ponderando entre o racional e o emocional. Tarefa difícil! Para humanos naturalmente imperfeitos e vacilantes.

Terminado a revelação intrigante de Moema, Iracema a convida para fazer um passeio pelas montanhas. Moema se entusiasmou pensando que poderia mostrá-la o local e como ele a abordou. Ao chegar perto da majestosa cachoeira de aguas cristalinas, elas escutam pisadas de cavalo e se escondem atrás de uma árvore. Naquele instante extasiadas de medo, repentinamente o cavaleiro loiro passou pelo caminho com seu belo cavalo. Moema o enxergou e o indicou a sua amiga. Iracema o viu e ficou impressionada por avistar alguém que ela conhecia apenas em lendas..

- Isso que meus olhos captam é real? As estórias da sua avó conferem a realidade! Sempre acreditei que eram lorotas, mas agora vejo que tem fundamento. E ele de fato corresponde a tua descrição, tem cabelos brilhantes que parecem uma espiga de milho. Acho que vimos um espirito da floresta, o cavaleiro do sol.

- Agora que você já sabe que não estou mentindo ou desvairando em sonhos, criando fantasias, espero que possa me ajudar a descobrir quem é. E o que estaria fazendo aqui? Para aonde ele acabou de ir agora? Estaria me procurando?

- Quando você o encontrou, ele te falou algo?

- Sim, mas eu não o entendi. Só senti o cupido me flechando!

- O que ele quer de nós? Porque veio nos assombrar? Porque não nos deixa em paz?

- Se eu gostei dele mesmo sem entendê-lo, acho que não teríamos razão para o temermos. Posso-te pedir um favor?

- Sim, contanto que esteja em minhas condições.

- Você pede o cavalo do seu pai e daí agente sai só nós duas pela floresta para tentar encontra-lo, e assim investigando agente pode desmascarar esse homem branco.

- Hum! Tem um probleminha, meu pai não permite que eu saia sozinha sem o acompanhante.

- Então você vem com o acompanhante e eu o convenço a deixar eu te guiar. Quando assim feito, lhe diremos para nos esperar que voltaremos num instante, e ai fugimos pela floresta afora.

- Sei não, é muito arriscado! Mesmo que você conheça todos esses lugares. Já que poderíamos nos perder na imensidão e no abismo dessa mata. Mas estou me sentindo tocada por esse espirito de aventura que me faz acabar cedendo a esse seu apelo.

- Pois então, não confia em mim? Não acha que já está bastante crescidinha para temer conhecer o vale do Amazonas?

- Ok, você venceu! Irei pedir ao meu pai. Mas se algo de mal me acontecer te rogarei uma praga que nunca esquecerá.

- Nossa que amiga malvada! Mas nada vai te acontecer de mal, te asseguro! Só estou tentando achar uma maneira de resolver o que está preso em mim. Só quero matar a curiosidade desse órgão vivo que bate no meu peito.

- E para isso, você planeja me levar junta? Seus romances eu não tenho nada a ver! Não me use para suas buscas íntimas. Desculpe! Mas essas coisas ninguém mais pode te ajudar. 

- Por favor! Você não vai se intrometer em meus lances. Mas esta é uma oportunidade única para nos aventurar e conhecer mais as redondezas que são de extraordinários encantos. Há muitos lugares que não conhecemos ainda. Vamos fazer um passeio para visitar as tribos vizinhas e pelo gosto de conhecer as paisagens.

- Ok, pedirei ao meu pai. Aguarde-me na árvore da vida que conduzirei o cavalo e Ibiajara até lá.

- Quem?

- Ibiajara! Não conhece?

- Ah ok, o seu acompanhante!

- Vou para casa me ajeitar e já estarei lá.

Retornaram ao vilarejo e lá cada uma seguiu para sua casa com o intento de se prepararem à cavalgada proposta por Moema. Ainda estava cedo, o sol exibia-se no centro do céu, indicando que estavam no meio do dia. Ao chegar em casa, Moema depara-se com sua mãe, Jaciara, que parecia reconhecer o comportamento denunciativo da filha.

- Filha, estava por onde? Por que você não me conta? O que está acontecendo?

- Nada mãe, estava passeando com Iracema! Mas será que a liberdade é prerrogativa somente masculina?

- Eu tive um sonho o qual te via debaixo de um arco-íris em plena coloração. O vermelho era o mais ressonante, e significava a proximidade de uma transformação, a transição de uma etapa a outra, de uma mudança no teu modo de encarar a vida. Parece que você está para sair da puberdade. Tem algo que você quer me falar? Eu posso te ajudar.

- Bem, mãe! Pode ser que eu não seja mais a garotinha de antes! Essas coisas são íntimas. Acho que não tenho nada para dizer a senhora. Desculpa! Quem sabe quando eu me sentir mais preparada, eu contarei.

- Ok, se você não se sente a vontade de me contar agora, eu te entendo. Mas saiba que eu posso perscrutar teu coração, até mesmo mais que tu própria. Algo que você tem a me dizer sobre o seu casamento?

- É! Estou sem um pingo de vontade e praticamente atemorizada em me casar com aquele indivíduo repugnante que só me traz infelicidades. Me arrepio só com a presença dele que me remete a morte. Porém, como aqui a minha vontade não vale de nada, eu vou me submeter ao que vocês querem, como as “majestades desejam!”

- Mas não é assim! Ele te foi prometido desde a sua infância, e você sabe que aquilo que é determinado pela tribo é porque estava escrito nas estrelas. Nada aqui é estabelecido do nada, foram embasamentos sábios e espirituais.

- Vai ver que as estrelas e os espíritos também se enganam! Alguém deve ter trocado e feito uma confusão lá nas constelações e os espíritos devem ter se equivocado quando leram o destino. 

- Que heresia! Não subestime assim o poder do além. Cuidado! Eles podem te amaldiçoar, minha filha!

- Eu não tenho medo deles! Eu temo ao meu coração que se encontra atribulado, sem trilhos seguros e nítidos. Tudo o que sinaliza são mistérios e enigmas que não dou conta sozinha.

- O que há? O que passa em teu coração minha filha? Porque está assim tão rebelde ao teu futuro marido? Por favor! Revele-me. 

- Não sei! Se eu soubesse não precisava mais questionar. Mas acho que o que sinto não deve ser declarado agora, talvez você jamais entendesse.

- Então você assume que está passando por algo intrigante? Está apaixonada por outro? Quem é? É daqui da nossa tribo? Ou não me diga que é alguém da nossa tribo inimiga, os Mayorunas?  

- Ah, mãe não sei! Talvez seja. Agora me deixa em paz! Preciso ver a Iracema novamente. Até mais!

- Mas você acabou de chegar de lá e vai sair de novo?

- Sem mais explicações!

A índia se retira constrangida e coagida pela sua mãe, logo ela? A quem Moema sempre contava todos os seus segredos. Se encontrava inibida e bloqueada para lhe falar sobre os seus sentimentos. “Talvez adultos jamais me entendessem. Mas quem sabe minha mãe por ser mulher, já tenha vivência o bastante a respeito dessas coisas e poderia me auxiliar? E como ela me ajudaria em uma situação intricada assim?” Pensou Moema.

Como o combinado, na árvore da vida, a índia hesitante esperava pela amiga. Quando avista, sem muita nitidez, uma garota sob o cavalo com um rapaz puxando a rédea timidamente.

- Olá, chegamos como havia te prometido. Porém, Ibiajara me disse que esse cavalo não encara três pessoas. Não é?

- Isso mesmo! Mas seu pai não quer que nenhuma de vocês vá guiando, ele não confia! Vou ter que ir montado conduzindo com uma de cada vez na garupa.

 

- Como? Você está louco? Assim não é um passeio! Temos que ir só nós, pois estou já há algum tempo aprendendo.

- Vocês pretendem ir longe?

- Não! Eu e Iracema vamos dar uma voltinha, só nós duas, se você permitir. Pode nos esperar aqui mesmo que vamos dar uma giro e não se preocupe porque não sairemos do seu campo de visão. Pois tenho muito medo dessas florestas abaixo, há muitas onças e animais ferozes.

- Só permitirei com uma condição!

- E qual é?

- Que você me dê um beijo!

- Olha! Você não tem respeito? Pois eu sou prometida ao filho do pajé e como se atreve a me fazer tal audaz solicitação?

- Desculpa! É que todos da aldeia sabem que você não o ama. E andam dizendo que você está apaixonada por um fantasma da sua imaginação.    

- Como ousas? Pois bem! Se assim me condicionas, eu te darei o beijo quando voltar, mas será sem língua! Só um pitoque. Portanto nos deixe seguir em paz agora, por favor!

- Ok! Não demorem! Estarei de olho!

Moema e Iracema disfarçam e dão umas voltas pelo espaço a fim de distraí-lo. Quando em um momento de deslize, elas disparam o cavalo pelo caminho que dava ao jardim do éden. Cavalgavam por aquela estrada repleta de borboletas de todas as espécies que encantavam o ambiente puro e silvestre. Já a uma certa distância, naquela euforia de fuga e perigo, Iracema solta-se do cavalo e cai inesperadamente.

Moema que guiava o animal, não percebeu de imediato o incidente, mas poucos segundos após, notou a ausência da sua amiga. Em estado de choque, freou o animal que disparava desembestado e retornou pelo caminho a fim de encontrar e ajudar Iracema. Ao voltar, avistou-a sentada e chorando desesperada.

- Iracema, o que aconteceu? Você se feriu?

Iracema aos prantos, responde:

- Não! Mas você quase me mata! Pensei que ia me abandonar aqui para ser refeição dos bichos.

- Não amiga! Nunca te abandonaria! É que na hora que você caiu eu não percebi e logo senti sua falta. Mas você não teve nenhum machucado?

- Não! Estava chorando de medo, não de dor. A queda foi porque eu escorreguei da garupa e foi tudo muito rápido, cai naquele barro mole e por isso não me machuquei. Nem deu tempo de te gritar, quando dei por mim já estava no chão e você havia sumido de vista.

Ao olhar em torno do monte, perceberam que a uma considerável distância se podia ver as onças pintadas que habitavam aquela área da baixa. 

- Desculpa mesmo! Mas os bichos estão lá em baixo, como você vê.

- Mas não temos garantia se eles podem subir aqui também!

Naquele momento em que Moema acudia sua amiga, se encontravam em uma estrada subindo o monte arrodeado de árvores enormes que ostentam aves belíssimas cantando o som da natureza em uma sinfonia perfeita o que dispensava um maestro, ou quem sabe O Maestro não fosse visível aos olhos. Aquela melodia natural tão bela, que nenhum ser humano jamais conseguiria reproduzir, ressoava como um eco espetacular retumbando brandamente aos seus ouvidos, naquele vale de tremendo encanto.

Naquela atmosfera naturalista e filantrópica, onde Moema confortava sua amiga caída, alguém as observava. Entretanto, elas não tinham essa consciência com exatidão. Moema somente teve uma leve intuição, um sentimento que lhe causava ternura, uma emoção romanesca que lhe indicava e lhe inspirava uma vontade de amar; quer que esse amor fosse: Ágape, Fileo ou Eros.

Um desejo involuntário de amar sem medida, de reconhecer sua sensibilidade, lhe tomava o espirito. Institivamente aquela sensação provinha por sentir a presença de alguém por perto. Sentia calafrios, arrepios e profundas emoções. Seus olhos inquietos examinavam o ambiente como se farejasse algo que nem ela mesma sabia o que era. Iracema estranhou o modo inesperadamente investigativo da amiga e lhe indagou:

- Que foi Moema, está vendo fantasmas? Está notando algo diferente além de toda essa bela natureza que nos sorri com sua graça?

- Não estou vendo nada! Mas estou sentindo que alguém está por perto.

- Ai meu Deus! Por favor, não me mate do coração! Você sabe que eu sou assombrada com essas coisas. Quero ir embora!

 - Calma amiga! Minha intuição me traz um sentimento bom de proteção, é como se eu respirasse sua existência. Como se sempre buscasse me proteger, é como se sua mera presença pudesse me fazer ver estrelas, viajar nas constelações da imensidão do universo, sentir como é o paraíso e despertasse o meu eu lírico e poético que estava adormecido.

- Ai ai ai! Você quer dizer que o cavaleiro do sol está aqui nos vigiando e que você sente o amor que exala do seu âmago? Ah, não venha com esse seu melodrama sentimental e suas fantasias lunáticas!

- Não sei explicar! Mas me remete aquela mesma sensação, a que eu tive ao deparar-me com ele. Será que está por aqui?

O português Pedro permanecia escondido atrás de uma árvore, meditativo, observando e apreciando Moema, mas para a sua desventura, ele não entendia o sentido das palavras proferidas pelas índias. Vocábulos que, se ele os conhecesse, facilitaria muito para o seu empreendimento. Ele refletiu e achou que seria melhor se retirar, visto que poderia assustá-las e afugentá-las, impossibilitando assim qualquer comunicação.

Mediante aquela emergente necessidade, ele se decidiu que iria aprender aquele dialeto. Não sabia como, mas conjecturava as várias possibilidades, entre elas seria de entrar em contato com aquele povo, sem os amedrontar e sem ser atingido também. “Mas como? E se forem canibais? Se eles me estranharem e quiserem me matar?” Pensou Pedro.

Estaria Pedro disposto a encarar tudo aquilo por um grande amor que surgiu assim? Do nada? Do coração? Até que ponto o coração tem razão? Até que limite o coração indica o caminho? Até que ponto a coragem deve ser disponibilizada em busca de um amor? Seria necessário arriscar sua vida, ser mais um mártir da historia, e de um amor supostamente Eros ou mesmo platônico?

Estaria aquele romance realmente marcado nas estrelas? O que explica aqueles sentimentos e sensações? Teriam eles razões? Razões ocultas aos nossos olhos? Nesse contexto, quem deve ter mais razão, os olhos do corpo ou os tais olhos da alma?

As índias já cansadas resolveram retornar para casa. No caminho Moema é invadida por pensamentos intuitivos e indagativos:

“Eu acho que ele estava lá em algum lugar a me observar, mas não teve coragem de se manifestar, pois temia a minha reação. E agora o que eu faço com um amor assim tão complicado? Tenho certeza que ele me ama. De onde apareceu? Caiu do céu! Seria um espirito que se apaixonou por mim e desceu para me levar junta? ”

Pedro volta para casa e explica ao seu pai da sua empreitada. Ele convence-o de se aproximarem a tribo para tentar um comércio negociando e escambiando objetos por plantas medicinais, e outras coisas. Pois Pedro se interessava por biologia e farmacêutica o que, a princípio, era a sua principal razão de estar ali naquelas terras abandonadas da civilização, além de acompanhar seu pai na conquista e colonização das terras. Por isso era necessário barganhar com os nativos para fins “lucrativos”.

Manuel, seu pai, estava nos Brasis para adquirir posses de terras. E com isso, vender tudo o que ali se produziam: as madeiras eram excelentes, o pau-brasil, o cacau, cana de açúcar em alta no mercado, ouros e bronzes. Tudo naquela terra era fecundo e rico e os colonizadores estavam lá excepcionalmente para explorá-la. Sua chegada era uma ameaça e uma tragédia para os puros e inocentes nativos que ainda nem imaginavam o que estava acontecendo nas redondezas.

Apesar disso, Pedro era diferente, ele seguiu seu pai pela responsabilidade de um filho varão. Não tinha intenção de explorar aquele povo. Era um jovem sonhador, um adolescente de apenas 16 anos, muito romântico e de bom coração. Adorava a variedade das faunas, se maravilhava com a diversidade da natureza e pesquisava plantas que servissem de medicamentos. Muito poético e sensível, preocupava-se com os sentimentos alheios e tinha uma leve impressão que sua alma gêmea estaria bem longe de onde nasceu. Ocasionalmente ele tinha um sonho onde se sentia perseguido por alguém que parecia querer matá-lo, e sempre que o ato estava prestes a se realizar, ele despertava-se atemorizado.

Como era muito belo, era muito apreciado e querido, as portuguesas sempre o admiravam e se apaixonavam pelo seu talento de transmitir emoções com suas palavras eloquentes e sedutoras. Era um poeta e tinha alma de artista. Entretanto, seu amor era praticamente inacessível porque esperava a mulher da sua vida. Aquela que lhe fora designada, a que atingisse o chacra do seu coração, reconhecendo-lhe à primeira vista.  

Ao chegarem à aldeia, o pai de Iracema irado, ao lado de Ibiajara que não tinha se esquecido da promessa, já havia enviado toda a tribo em procura da filha. Iracema foi reclamada e castigada. Moema, todavia, foi poupada da punição por aparentemente não ser a responsável pela desobediência. Não tiveram nem espaço para explicações. Mesmo assim Ibiajara pediu a Moema que lhe cumprisse o que foi condicionado.

- Não vai me dar o beijinho não?

- Vamos resolver isso outra hora! Aliás...Você nem merece porque você causou todo esse fuzuê. Cara! Eu vou me casar! Me deixa em paz e vai procurar outra que te queira. 

Ao chegar em casa, Moema novamente encontra a mãe que a esperava na porta com um ar misteriosamente desconfiada.

- Por onde andava, filha?

- Já falei que estava com minha amiga! Por que a senhora não me deixa sossegada. Sondando meus passos 24 horas?

- Calma! Só estou preocupada! Afinal de contas, sou sua mãe e sei que algo te passa. Mas você insiste em manter esse segredo.

- Ok, mãe, eu confesso! Estou apaixonada por outro, e por isso não posso me casar. Há um grande mistério que imerge a minha afetividade. Como pode me ajudar?

- Bem! Acho que meu sexto sentido sempre me dizia que você era diferente e que tem um caminho a ser traçado raro entre nós. Você é especial e tem uma missão que vai além da minha compreensão. Mas posso saber quem é o sortudo?

- Não! Porque você não o conhece! Ele não é da nossa tribo, nem de nenhuma outra, muito menos dos nossos inimigos como você julgou. Não sei de onde veio, nem sei se é real ou se é um espirito. Enfim, estou perdida sem saber o que fazer e que rumo tomar. Por favor, mãe, me ajuda! Estou tão confusa!

- O que foi filha? Como assim? Você se apaixonou por um fantasma? Quem? Onde o encontrou?

- Você se lembra de uns sonhos que eu costumava ter? Eu sonhava sempre com ele. Estava presente em mim toda a minha vida. Vive em meus sonhos, em minhas visões, em minhas recordações e em toda a minha consciência. Porém, dessa vez, eu o vi de verdade, com meus próprios olhos que a terra há de comer. E acho que eu o amo com todas as veias do meu coração!

Jaciara não sabia o que dizer, ficou reticente e a abraçou dando-lhe um beijo. Falou-lhe somente para seguir seu caminho, para não hesitar nunca em seguir sua intuição, uma vez que era muito poderosa e a havia herdado dela. E que quando estava grávida de Moema, ela tinha constantemente sonhos onde a mergulhava, quando bebê, num riacho profundo no qual era levada por um moço estranho que acreditava ser o espelho dos teus sonhos.

- Nos sonhos, a mãe d’água Yara me aparecia, te pegava no braço e me dizia que era o teu destino e que eu não poderia interferir em nada, mesmo que eu pudesse sofrer pela tua partida, e te entregava a um rapaz. Apenas me dizia que era por uma causa sublime, em que você deu sua vida por amor e que viria a justificar o amor sobre o ódio.

- E o que isso tudo significa? Você entendeu a mensagem?

- Não entendi nada! Permaneceu um mistério em minha mente. 

- E você chegou a ver como era o homem?

- Não, estava confuso! Mas acredito que é o homem da tua vida que está escrito nas estrelas desde antes de você nascer. Todavia, não entendo porque o destino prega peças dificultando e mistificando as coisas. Bem que ele poderia ser o teu atual prometido! 

Coincidentemente, naquela mesma noite, Moema teve um sonho no qual se encontrava com Pedro onde lhe pôde abrir todo o seu coração. Mostrava-lhe o quanto sofria por estarem a tanto tempo separados e que seus destinos agora iriam finalmente se entrelaçarem e que nada, nem ninguém os impediriam.

Concomitantemente, Pedro tinha o mesmo sonho no qual eles se pronunciavam e se enxergavam no mais belo reflexo de um rio. Comunicavam-se em um idioma comum aos dois, eles se compreendiam perfeitamente, se tangiam. Que língua seria?

Pedro disse-lhe que seu maior desejo era viver sua vida para sempre ao seu lado e eternizarem aquela harmonia incondicional em suas existências. Suas almas, já há milhares de anos se procuravam, se tangiam, mesmo que seus corpos estivessem geograficamente longínquos. Mas seus corações eram para sempre espiritualmente conectados. Por vezes seus espíritos se encontravam através de sonhos, mas não a ponto de estarem cientes desse fato. Seus encontros espirituais não passavam do limite dos seus subconscientes.

Entretanto, dessa vez, de tão sedentas uma pela outra, se encontraram de fato em outra dimensão extraterrena. Ali transmitiam-se seus anseios, seus pensamentos e entravam em acordo enquanto ao que eles pretendiam fazer para efetivar o elo desse amor. 

Na manhã seguinte, Moema desperta feliz e disposta a reencontrá-lo para finalmente solucionar aquele mistério. Contudo, seu desejo era um tanto impreciso e abstrato, visto que nem imaginava como poderia se encontrar novamente para dizê-lo que o amava em reais palavras. Era uma situação realmente fora do comum aquele amor espiritual. Surreal!

Mas o amor é assim original e criativo, ele não tem regras, nem precisa de receitas para acontecer. Sua especialidade é contrariar as tolas e limitadas convenções, invalidando qualquer conservadorismo social, contextual, ideológico ou cultural. Simplesmente surge de onde menos se espera transgredindo expectativas e lógicas. Esse é o seu grande fascínio, é exatamente sua ausência de forma que nos arrebata e nos maravilha. Chega como uma surpresa inexplicável inviabilizando a compreensão dos meros mortais, mostrando sua força incontrolável e imprevisível.

 

A visita

 

Após o café da manhã, Moema tem um lapso de sair da toca e ao abrir a porta, ela o enxerga no meio da aldeia ao lado de outro homem branco tentando estabelecer uma comunicação com o Cacique. A maioria dos integrantes da tribo já se encontravam apreensivos e circundando os visitantes extraterrestres. Estavam todos muito alarmados e por conta do instinto de proteção já desapontavam suas flechas mirando e cercando os forasteiros que pareciam inofensivos e sem reação.

 “Subitamente, como um flash, Moema tem uma visão aonde ela sentia uma agonia e aflição ao pular na frente de alguém, como se o acobertasse, e finalizava com um impacto imenso sob o peito o que a fez recobrar a consciência.”

E junto aquela visão lhe decorria uma dor intensa no peito que lhe deixava atordoada. Aquela dor lhe acontecia algumas vezes e especialmente quando ela pensava ou se deparava com seu prometido noivo.    

Os portugueses ali presentes vinham carregados apenas de objetos estranhos e como se esforçassem para transmitir alguma mensagem ininteligível. Quando Moema viu que eles estavam sendo ameaçados, se sentiu comovida e no dever de defendê-los ainda que parecessem um perigo ao seu povo.

Moema gritou que os deixassem em paz, pois estariam ali inocentes e que eles queriam nos comunicar algo de grande importância. Mencionou que eles eram enviados pelo deus sol e por isso tinham cútises e cabelos tão reluzentes quanto o mesmo. Eram os cavaleiros do sol que lhes visitavam para lhes notificar o que estava transcrito nas estrelas. E os objetos que portavam seriam veículos para se conectarem às entidades.

O cacique, quase convencido pela filha, teve uma protestante curiosidade ao questioná-la:

- Como você sabe de tudo isso? Por acaso você virou bruxa agora?

- Não pai! É que tive um sonho esta noite onde me diziam que hoje teríamos uma visita dos enviados dos deuses e que eu estava incumbida de revelar-vos essa mensagem a fim de que vocês os recepcionassem e os aceitassem sem provocar discórdias. Estariam aqui para nos dizer a verdade que buscamos.

- Você e seus sonhos! Acha que tem sentido?

- Mas pai! Só é observar que eles não vieram guerrear, estão apenas coagidos por nós que ignoramos o seu modo de ser e falar. Eles não trazem nenhuma arma, ou pelo menos aparentemente. Estão de mãos levantadas e entregues a nosso bel-prazer. Não o vê? Só falam algo que não entendemos.

Os portugueses, sentindo-se acuados, tentavam transmitir suas ideias por gesticulações e mímicas. Moema atraída por Pedro faz um esforço para compreendê-lo sintonizando-se nele. Ela chegou a um nível de concentração surpreendentemente profunda, que como se estivesse em transe, passou a comunicar-se com o estrangeiro.

- “Viemos aqui para negociar e permutar nossos objetos com as posses do seu povo, e gostaria de conhecer vocês.”

- “Mas afinal, quem são vocês e de que parte vieram?” 

- “Somos de outra parte do mundo e descobrimos as suas terras que são bem diferentes, fazendo-nos sentir que estamos num paraíso. Gostaria de te dizer também que não sei porque razão você me tocou o coração.”

- “Sabe que sonhei com você esta noite me dizendo que me amava? É verdade?”

- “Tal mesma visão me recaiu ao adormecer, onde pude te expressar todo o meu sentimento e por ti me convencer, que teu amor veio a mim conceber e que o universo inteiro existiu apenas para eu te conhecer. Amo-te desde quando existo, desde quando o mundo é mundo e te amarei eternamente como já está previsto. Amarei até mesmo os teus defeitos porque ao unirem-se a mim, seremos um casal perfeito. Eres o que eu tenho sempre buscado e só agora pude encontrar te ao meu lado.”

- “Você é o cavaleiro do sol? Enviado pelo deus sol?”   

- “Combustível dos meus ensejos! Eu sou tua metade e tu a minha, não tenho mais dúvida dessa sina! Todo o propósito da minha existência convergia para esse momento, esse agora onde te encontro que será um advento. A razão da minha vida é estar ao teu lado, é ver que fui feito para você e serei sempre o teu adorado.”

- “Cúmplice do meu afeto fecundo! Sou tua desde quando a minha consciência germinou nesse mundo. As estrelas já sabiam que esse amor era tão profundo, e que o acordeom e a melodia rimariam num céu fundo.”

Naquele estado de transe telepático, todos puderam sentir a emanação romântica e sagrada de um amor misterioso que encantava e onde todos relaxavam naquela paz total, como se o paraíso se manifestasse entre eles naquele instante. Um sublime aroma de rosas se espalhava no ar provocando-lhes um desejo forte de manifestar seus afetos, de amarem-se, de viver intensamente aquele sentimento de doar-se por algo divino e belo.

Embora o cacique também tivesse se arrebatado naquele êxtase lírico, se inquietou e se impacientou com aquele estado de torpor, como se estivessem hipnotizados e dominados por forças desconhecidas, as quais tinham o incrível poder de suprimir suas personalidades. 

- Moema, o que está ocorrendo? Eles são bruxos? O que vocês estão fazendo assim parados se olhando como se se conhecessem? Como se você o adorasse, como se o amasse? Eles estão te seduzindo e você está cedendo? Eles são extraterrestres e tem poder de ludibriar!

- Estou me comunicando! Pai, como eles são os filhos do sol, eles vieram em paz e estão me dizendo que só querem comerciar conosco. Vieram de outra parte da terra e descobriram a nossa que é muito bela. Só desejam nos mostrar seus artefatos que nos podem ser úteis para falar com os espíritos, e tem outros objetos comuns, se por ventura tivermos necessidades. Vieram apenas nos ajudar.

- Eles estão te comunicando sem palavras? Que comunicação muda! São feiticeiros e podem te dominar!

Moema é sábia em tentar conservar o conceito místico daquela visita para o seu pai, já que só assim teria uma aceitabilidade maior. Ela também justificava lhe que eles teriam aquele poder telepático porque eram realmente enviados do deus sol e semente ela, dentre a tribo, recebeu aquele dom. Também, ela estava consciente de que era mais precavido manter o segredo do amor só em seu coração. Pois já havia revelado seus sentimentos a outros e foram sempre incompreendidos.

Preferiu contar apenas consigo mesma, sem esperar a opinião dos outros que jamais seriam capazes de indicá-la seu caminho certo. Estava mais segura do poder da sua intuição, e se familiarizava com os mistérios que a circundavam. Achava-se mais autônoma, independente e decidida. Através de sua experiência aprendeu que existiam designíos divinos os quais ela estava encarregada de supri-los e de desvendá-los por meio da sua coragem e disposição.

Retornando à comunicação amorosa, Moema sente Pedro vibrar em sua alma. Seus chacras cardíacos pulsavam ritmicamente em sintonia com a mente. Aquela comunicação já não era acepções que derivavam de suas cabeças e sim dos seus corações que adquiriam uma linguagem de intelecto expressivamente poético. Aquele amor sagrado oriundo de longas eternidades era de uma intensidade amedrontadora o qual os seres involuídos não conseguiriam jamais digeri-lo. 

- “Minha eterna companheira! Tua essência é uma poesia que embeleza o exercício do meu viver. Eres uma arte por si só, e somente para ti irei sobreviver. Fostes esculpida e pintada com pinceis especiais pelas mãos divinas e o teu molde de cristais foi jogado fora, a fim de que ninguém outrora pudesse te invejar e te copiar. Tua exclusividade é só minha, fostes idealizada para me completar, para me mostrar que beleza maior não há. Contemplo a tua rítmica melodia e imerso a tua justa poesia me enlaço no compasso da tua sedutora boemia.”

- “Irmã gêmea de minha alma! Não precisa me dizer mais nada, só me tome em teus braços e diga que serei para sempre a tua amada. Me leve aonde for, pois depois de ti, teu exílio me seria a mais insuportável dor.”

O português enfim se aproxima e a envolve num abraço, dando-a um beijo embriagante e fascinante espargindo a graça e a beleza da imortalidade aos olhos de todos ali presentes. O Pajé Tacumã reconheceu que era a alma gêmea de Moema que viera buscá-la. Acauã sentia-se traído e prestes a matá-lo, quando Tacumã segurou-lhe impedindo o ataque, e teve a sagaz ideia de desafiar o forasteiro em um duelo com o prometido disputando a majestosa morena.

Assim que o beijo apaixonado cessou, o Pajé alvorotado dirige-se a Moema e diz:

- Como ousa? Perdeu o respeito pelo teu futuro esposo? Pela tua família e por toda tribo? Não percebe o que está fazendo?

- Eu fiz o que era para ser feito! É você quem não tem respeito, nem consideração aos sentimentos alheios. Você é um egoísta e trapaceiro que manipula tudo a seu bel-prazer.

- Pois bem! Já que a mocinha se apaixonou pelo fantasma cara pálida, eu o desafio a confrontar o meu filho, pois a mancha que você o desonrou merece ser limpa através de um combate entre os dois. E que vença o melhor!

Moema, preocupada e constrangida, se perde perplexa e sem saber o que fazer. Pedro, ao perceber o semblante afligido da amada, intui que algo não estava certo, que aquele beijo público pode ter lhes trazido desgraças.

E telecomunica:

 - “Menina dos olhos meus! Não sei o que me aconteceu, esse incidente estava além de todo controle meu. Esse beijo que nasceu não consegui impedir e foi assim que se deu. Forças maiores dominaram e traçaram esse meu fado. Foi uma fatalidade inevitável te tocar e estar por ti apaixonado. O acaso me trouxe para te amar. Teu magnetismo me clamava a todo momento e irresistivelmente me entreguei ao teu chamar. O que tens em ti que me seduz e me convoca a te buscar? O que isso provocou? Qual consequência tal sonho acarretou?”

- “Oxigênio do meu ar! Eu fui prometida ao filho do Pajé e, consequentemente, ele se enfureceu e te propôs uma luta que provará a tua fé. Um combate que terás que travar com o noivo que eles julgam ser o predestinado a me casar. Entretanto, vejo que sua profecia se equivocava, pois encontrei a ti, a minha alma perdida, o remédio para a minha ferida, o pedaço que me faltava.”

 - “Lua do meu céu! Fascinante é ter te encontrado tão belamente, e morrer agora ao teu lado, já estaria feliz satisfatoriamente. Porquanto, só agora eu vejo o porquê eu nasci. Eu existo para ti, e sem ti, não saberei viver, me extrairia as razões para nesse mundo renascer. Meu pedaço do céu, por ti, iria à região dos mortos, enfrentaria mil leões, beberia fel, te recitaria os poemas de Camões, maltrataria Seu Manuel. Se preciso for, por ti, serei confrontado, mas quero que saiba que a minha vida já valeu a pena em ser por ti tocado, pela tua existência e a tua consideração, e que se eu morrer no combate, te levarei para sempre em meu coração. A virtude do teu amor não acabará jamais, levarei aonde eu for, pois se tenho o teu amor, encontrarei a paz. Aonde o acaso me conduzir teu belo amor hei de seguir já que ele é para mim a infinidade de todas as coisas e o motivo que me inspirou a existir.”

- "Raios do meu sol! Não diga isso! Eu sei que Deus escreveu um lindo final que nos espera. Ele é um ótimo narrador e sei que nessa esfera, o meu otimismo se confirmará, pois o amor é tudo que sentido a vida dá, e que mesmo diante de tudo, Ele não nos decepcionará. No entanto, se você partir, eu não vou me aguentar, buscar-te-ei aonde estiveres, nos céus, nos abismos ou nos confins do mar.”

Jurema aparece como se tivesse um segredo a dizer, ou como se soubesse o significado daquele amor. Pois, muito perspicaz, ela mantinha-se observando-os e notou que ambos tinham um sinal de nascença idêntico na palma de suas mãos direitas, só que em metades opostas que ao darem-se as mãos, esses sinais se uniam e se complementavam formando um coração. Além disso, havia um sinal que sua neta tinha no peito que ainda lhes era um enigma. Era muito bonito sentir e ver aquela união.

 Moema escutava o seu sermão e observava o seu parecer, tentando se explicar e compreender a sabedoria dos mais velhos.

- Moema minha netinha! Esse homem veio de outro mundo e quer te levar. Ele é o fantástico homem branco, “o cara pálida”. Vi que você consegue comunicá-lo sem necessidade de palavras e isso é um dom concedido exclusivamente às genuínas almas gêmeas. Ele é a tua metade, tua companheira de viagens eternas. É evidente que vocês têm uma conexão muito forte, um elo emocional antigo que os une. Pude perceber também alguns sinais de nascença nos dois o que ratificam esse fato, além de sentir a energia que basta o coração para enxergar esse fenômeno.  Os que têm o peito fechado são como se estivessem cegos para a outra dimensão, e por isso não conseguem apreender esse mistério. Vocês dois são almas que se perderam por algum tipo de separação e estão por um longo período se buscando, pois por algum motivo desconhecido, se afastaram e vivem peregrinando pelo mundo em longas distâncias até se acharem definitivamente. Sinto muito em te desejar isso, já que implica em tua saída, mas sei que ele foi enviado para você. E tens que seguir teu caminho, só te peço que ore bastante para que ele saia dessa batalha ileso e preparado para te levar. O “cavaleiro do sol” é quem te mostrará tua passagem para a eternidade e te livrará do exilio e da dor que tua morada atual te condicionou.

- Nossa vovó! Só a senhora é a única que me entende aqui no meio desse bando de ignorantes e repressores. Eu o conheço nos meus sonhos desde minha tenra idade. Vivia com ele em meu âmago, sonhava-o, sentia-o, falava-o, ouvia-o. E de repente, ele me aparece de verdade trazendo-me memórias, reminiscências de consciências extratemporais, evocações sinestésicas, noções simbólicas e sensoriais, sentimentos sublimes e elevados que ascende a chama da minha alma. Mas não entendo ainda muito bem essa trama que envolve meus caminhos. Quando você me contava aquelas estórias, eu podia vê-lo precisamente em detalhes como o descrevia, uma vez que já o tinha escrito e instalado em meu coração. Grande é a tua sabedoria, mas só te solicito uma coisa: confio-te tuas orações, pois sei que tem muito poder.

As duas se abraçaram extremamente emocionadas e Moema volta a se comunicar com Pedro.

- “Vício do meu amar! Sei que viestes aqui para me levar, e por tanto tempo já não suportava mais te esperar. Embora exista esse obstáculo a superar, mas pensei comigo e decidi fugir contigo, ir aonde der o infinito, e todas as matas transpassar. Se assim necessário, oceanos atravessarei, evadir-me contigo e as margens do mundo ultrapassarei e destruirei os teus inimigos. Tocar e cantarolar as estrelas, pois ao teu amor me entregarei e serei o teu abrigo.”

- “Meu desejo, minha amada! Era te ter sempre em meus braços, te levar aos meus sonhos, te doar as estrelas, te mostrar o paraíso, ser o pai dos teus filhos. Mas não poderei fugir sem por ti lutar. Batalharei e afrontarei os mais temíveis inimigos, se por ti faz sentido minha existência partilhar. E se preciso for irei por ti a minha vida sacrificar.”

- “Espelho do meu passado! Se elaborado fostes tu para em mim se unir, o rascunho do teu coração escondido está; o esboço da minha alma das mesmas mãos foi idealizado, e como pássaros arremessados ao ar para um dia finalmente se encontrar.”

 - “Anjo do meu paraíso! Teu amor devoto que me concebestes conhecer com o teu sorriso. Satisfeito já estou, que se esse combate é o preço a saldar, ainda que pereça, jubiloso estarei por ele pagar.” 

Após aquele encontro poético e sonhador entre almas gêmeas, Moema o deixa com um beijo que podia insinuar uma despedida ou esperança. Pedro tocava-lhe a boca com lábios leves e delicados e não conseguia solta-la mais. Até quando o filho do Pajé, comandado por ele, vem e separa o casal.

 A bela índia se sentiu invadida por aquela atitude e reagiu agressivamente, sendo arrastada, gritava encolerizada. Não tirava os olhos do seu amado, que parado, a observava, sem ter como reagir, encurralado por índios cerceadores.

- Soltem-me! Vocês não têm o direito de impedirem o meu destino! Eu sou dele, e ele é meu! Não podem negar o que já está decidido por Deus!

- Veremos quem será o seu verdadeiro prometido somente depois da disputa. O vitorioso é aquele que vai te esposar.

O cacique Apurinã também se manifestava resistente a essa relação de sua caçula com aquele forasteiro, embora já tivesse conversado com a sua mulher e com a sua mãe as quais já haviam acolhido e aceitado o caminho da garota. Como ele a amava muito, não conseguia ser firme e rígido em sua posição. Aparentemente conservava-se um tanto indiferente e imparcial. Ainda que seus valores fossem contrariados, “Lavou as mãos” e dissimuladamente deixou tudo à responsabilidade tendenciosa do seu camarada Pajé.

Os portugueses são conduzidos até as ocas, enquanto os nativos curiosos vasculhavam e bisbilhotavam todos aqueles artefatos incomuns trazidos pelos estrangeiros. Pedro não compreendia muito bem o que ocorria. Estavam muito nervosos, e como não lhe restavam outra saída, tiveram que se submeter às ordens, sem relutância.

Lá dentro da oca sentados e reunidos, tentavam uma comunicação gesticular e foi necessário até se expressarem através de desenhos traçados com varas de pau no chão. Com um cajado na mão, o pajé apontava o dedo para Pedro, depois para seu filho. Com o bastão ilustrava uma cruz e apontando a cada lado do desenho para os lutadores, lado direito, o nativo versus lado esquerdo, o imigrante.

No entanto, movido pelo nervosismo, Pedro se sentia perdido e sem noção, aquela simbologia lhe causava confusão. Porém, ele se recordou que Moema lhe havia comunicado que foi imposta uma condição: a qual só poderiam estar juntos se ele vencesse o presente oponente. Seu Manuel não tinha atitude e tão pouco entendia o que se passava, de tão atônito e pasmo, permanecia quieto e observante. Mas esperava sua vez de se expressar para tentar escambiar os objetos que chamavam bastante atenção daquele povo. 

Manuel se encantou por aqueles ornamentos de barros, aquelas armas e utensílios que lhe poderiam ser úteis em sua peregrinação pelas terras.  Pedro desconfiado notava que aquela reunião se tratava de algo muito mais grave, acautelou o seu pai para que esperasse o Pajé terminar de comunicar o motivo daquele círculo.

Enfim Pedro compreende que estavam todos ali confabulando um combate que ele teria de travar. Não obstante, ele ainda não sabia quando iria acontecer e se usariam armas ou se seria apenas de corpo a corpo. Como Moema encontrava-se ausente naquele momento, e já que todos sabiam que só ela tinha o dom de se comunicar com “o cavaleiro do sol”, foi convocada a se apresentar a fim de assegurar que tudo estava esclarecido e de acordo.  Trouxeram-na arrastada e impelida pelo constrangimento que sentia, e ao ser requisitada que passasse a mensagem, ela se expressa:

- “Complemento de minha alma! Como já te contei, ele acredita que tu estás em sua palma. Hoje tramam e conspiram a tua destruição, e com muita calma, planejam comer as vísceras do teu coração, pois sua mordaz finalidade é atordoar a tua missão. Entretanto, mesmo diante de qualquer desespero, você o enfrentará e mostrará que és o meu grande guerreiro. Vitorioso já estás, pois em Deus hei de confiar, já que com o justo Ele estará para sempre a amparar. Lute com toda a força do teu amor, e ainda que te venha muito temor, acredite que contigo já estou, pois minha alma há muito tempo a ti clamou.”  

- “Flor de luz do meu jardim! Eres a rosa mais cultivada, com teu esplendido pólen de mel jorrando em minha estrada. Posto que, desde a eternidade, sois a minha única amada, e por ti darei a minha vida, nem que para isso ela seja sacrificada.” 

Pedro comprovou aquilo que estava imaginando e soube que lutaria naquela mesma tarde. Sentia-se desafiado sentindo o cheiro da morte próximo, mas quando pensava em Moema, se entusiasmava e pressentia que o cosmos estava em seu favor. Estava convicto que seu amor era divino e por esse motivo, encontrava-se otimista. Seu coração era preenchido pela beleza do amor; por aquela sublime sensação de estar apaixonado; pela plenitude absoluta que a paz de quem localiza a alma gêmea promove a quem nasceu para se complementar.

O Pajé e seu filho Acauã dirigem-se a Pedro e se expressam em gestos lhe insinuando que o combate estava para começar. O português, aparentemente frouxo e amedrontado, procurava por Moema para averiguar como ele deveria proceder, e para que, se por acaso ele morresse na batalha, ela soubesse que o seu anseio por ela era eterno e que a levaria permanentemente aonde quer que ele fosse. Moema pressente sua aflição e expõe-se a transmitir:

- “Ondas do meu mar! A disputa já vai começar, só seja firme e espere em Deus que vai te ajudar. Sinta em teu coração a sintonia e o amor que nos unirá.”   

-“Sabor do meu paladar! Só desejo te gratificar por na minha vida participar. A força que me faz encontrar com o teu amor é o que vencerá.”

Pedro é conduzido ao terreiro e dirigia-se ao centro daquele círculo. Iniciavam o esdrúxulo ritual de luta, soavam os tambores e estreavam a dança ritualística onde a disputada e infeliz índia era obrigada a bailar. Todos ali presentes eram impelidos a beber o cálice de conteúdos alucinógenos. Surtia um efeito muito rápido e evidente, as pessoas ali pareciam perder a ordem comum, se tornavam mais excêntricas e espontâneas, como crianças que não temem em brincar. Até os pequenos curumins compareciam naquele evento assim violento e vicioso. Não tinham censura de idade, os pequenos eram induzidos a adentrarem na vida adulta desde cedo.  

Aquele ambiente fúnebre onde o céu se contornava de uma matiz roxa como se representasse luto e desgosto. As nuvens pesadas e escuras sombreando todo aquele ambiente triste. O Cacique junto com o extravagante Pajé puxavam cachimbos exóticos provocando uma fumaça que tomava e enegrecia todo o ar daquele espaço.

Por vezes, enxergava-se tudo nublado pela fuligem o que causava tosses agudas em crianças não acostumadas e até mesmo em adultos. Alguns fumavam cigarros de palhas, marijuana, outros se inebriavam com o líquido retirado da mandioca. Uns utilizavam-se de suas plantas sagradas como se almejassem entrar em transe. Cada um comprazia-se e preparava-se para o rito ao seu modo.

Completamente embriagados os nativos balançavam seus corpos ao som do batuque. Tambores estremeciam seus corpos e com os sentidos e a consciência alterada, pareciam que entidades desciam sobre eles naquele intenso episódio marcante e emblemático. Seguiam suas danças coreográficas sugerindo uma comunicação com os espíritos. Faziam caretas macabras, produziam sons guturais de dar medo, imitavam animais.

Alguns pegavam em serpentes peçonhentas simbolizando o poder ou mesmo a morte. Após a dança, Moema foi obrigada a beber uma das substâncias entorpecentes e depois trazida à frente sentando-se numa posição de destaque, como se o motivo principal daquele evento fosse inteiramente de sua responsabilidade.
 

A disputa
  

Excentricamente o cacique surge no círculo com uma flauta rudimentar. Tocava o instrumento com um vigor agressivo que alguns presentes não toleravam o som e tapavam os ouvidos. O Pajé aturdido, prepara os lutadores e dá a largada:

- Que a derrota recaia sob o mais fraco!

O suspense e expectativa daquele maquinado duelo por fim são consumados, significando apenas distração e entretenimento para a maioria daquela aldeia insensível e desalmada, cuja miséria alheia lhes era motivo de prazer.      

Acauã olhando diretamente nos olhos de Pedro, manifestava uma expressão amedrontadora e intimidadora desafiando o bom e comportado rapaz. Pedro extraia forças que vinham do seu mais profundo íntimo, com a mesma intensidade do seu amor, mas que naquela ocasião e pela necessidade, foram convertidas para um sentimento de determinação e autodefesa.

Implacavelmente Acauã lhe atacava, lhe incidia com veemência e atrevimento. Pedro, a principio, manteve-se na defensiva, concentrava-se e clamava por forças maiores, além das suas. A abordagem audaciosa do inimigo só alimentava a fúria e a força acumulada do branco. Agressivamente se abraçavam e se combatiam. O cenário daquela luta era deplorável, com muita expectativa e suspense. O pobre forasteiro só havia uma única torcedora em seu favor contra toda aquela multidão que lhe emitia energias adversas. Sentia-se acuado, pressionado e rejeitado, mas pelo o amor que lhe foi plantado, ele não se desanimou.

Enfrentou seu inimigo arrancando forças de todos os prováveis lugares. Naquela desoladora e desprezível circunstância, Pedro movido por uma força descomunal derruba seu opositor e finaliza supreendentemente aquele duelo. Sem matá-lo, nem maltratá-lo, apenas lhe combaliu as forças. Mostrando que o amor é forte e prevalece, que quando se age por ele, as montanhas mais impossíveis são alçadas, em detrimento da força enganadora e fraca do ódio e do ciúme.

Eles voltam a se comunicar:

- “Fragmento de minha alma! Eternamente seremos contemplados a nos amar. Serás para sempre meu complemento sem fim a me aperfeiçoar.”

- “Infinidade dos meus segundos! Irei para onde teu coração quiser me levar, pois adquiri azas com o teu amor e com ele irei voar.”

Os reais valores se manifestam no final, revelando que a verdade é tão formidável que para encontrá-la, exige-se muita coragem e esforço. Para a maioria não evoluída, o ódio puro é visto como uma força forte dos guerreiros, mas é nele que se encontra a cerne da covardia, do medo e da falta de entusiasmo em viver. O amor é tudo o que move o mundo, é o que produz sentido, o que entusiasma a vida, que aquece o gelo, que preenche os vácuos.         

Somente a Dona Jurema é quem realmente sabia e entendia do mistério da sua neta. E ao finalizar-se toda aquela confusão, a avó decidiu abrir o jogo e revelou a Moema que o rapaz branco era sua alma gêmea que ela havia dado sua vida por ele, quando em vida passada Acauã, novamente por ciúmes, queria matá-lo, e ao disparar a arma, Moema se jogou em sua defesa e acabou desencarnando em seu lugar.

Naquela reencarnação anterior, Acauã em uma circunstância de tamanha ira, decidiu tirar a sua própria vida no mesmo instante. Pedro foi poupado da morte, entretanto, ele não superou a dor e acabou morrendo de tristeza meses depois da morte de sua amada. Daí eles retornaram a atual vida para que pudessem resolver e mostrar que no universo é a lei do amor que deve prevalecer. E para Acauã com seu pai Tacumã que não souberam respeitar e conhecer o amor, resultaram-lhe em derrotas e desprezos.

O vitorioso branco ganhava o respeito daquela tribo que lhe aplaudia admiravelmente e freneticamente. Finalmente dirige-se a bela disputada, toma-lhe em seus braços e com um beijo de lua de mel finaliza a arruaça. Moema se regozijava pela paz que aquela vitória e revelação lhe presenteavam. As esperanças e alegrias de continuar a sua vida preenchia todo vazio que o ódio e incompreensão lhe havia vitimado.   

Apesar do respeito ganho por Pedro na tribo, tiveram de enfrentar alguns problemas por conta das suas distinções de origens. O surpreendente casal original e almas gêmeas de longas datas consolidaram aquele lindo amor, não apenas em seus sentimentos, mas na vida a dois. Tiveram que fugir dali, pois mesmo tendo ganhado a aceitabilidade, o Cacique relutava pela sua filha, não queria perdê-la assim, dessa forma eles cruzaram o mar, fixaram-se em Portugal, casaram-se e formaram uma bela família.


                                                                                                    Pedro Samuel de Moura Torres