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quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

A FILOSOFIA DA ARTE: SEM A VERDADE DA ARTE O MUNDO SERIA DERROTADO PELO CAPITALISMO


                              
                                                                               
                                                  
                                                                 Pedro Samuel de Moura Torres

 

A arte é uma força vital para o desenvolvimento humano, pois a partir dela se consegue enxergar a nossa caminhada e evolução. O homem moderno tem levado uma vida com valores cada vez mais corrompidos pela ganância do materialismo, tem perdido alguns dos bons princípios éticos. A arte existe exatamente para conscientizar as pessoas sobre suas vidas, porquanto a voracidade do capitalismo está alterando o sentido do existir. O poder da arte move, controla, prende e domina a todos; seu mistério é uma permanência viva e de impenetrável descrição, fruto da criação, bondade e inteligência divina.

A arte é ofertada a todos, pelo criador, através da própria natureza: o sol, as estrelas, o mar, o arco-íris, enfim, todos os fenômenos naturais e criações são exemplos do significado da arte. Nesse sentido, as pessoas deveriam abrir os olhos e estabelecer outros ideais de vida para melhorar o mundo: fazendo da arte a primeira prioridade para vencer o materialismo. A arte pode ser a resposta para a maioria dos problemas, especialmente para formar cidadãos conscientes sobre como viver melhor.

Então, o que é uma verdade artística? Há várias teorias e argumentos, algumas dessas são conhecidas como teoria da imitação, teoria da expressão e teoria formalista, podendo ser agrupadas numa mesma categoria, a das teorias essencialistas. O discurso da arte é bastante polêmico e controverso, devido aos seus complexos e diversos significados, pois o seu conceito é extremamente subjetivo e varia de acordo com a cultura a ser analisada, período histórico ou até mesmo indivíduo em questão.

A definição mais literal da palavra arte, conforme o dicionário Aurélio é “capacidade que tem o ser humano de pôr em prática uma idéia, valendo-se da faculdade de dominar a matéria.” A sua significação toma amplitudes múltiplas e diversificadas ultrapassando a cronologia do tempo. A necessidade e o uso da arte vêm desde os primórdios e tornou-se costume prevalente em todas as culturas existentes na terra. Após sua origem, há milhares de anos, a arte evoluiu alcançando uma admirável posição na sociedade.

 Pode-se tentar resumir algumas das definições sobre a arte. Um comentário mais geral é que ela pode englobar todas as outras atuações humanas, universalizando a essência do existir. Pela sua natureza abrangente, a arte pode utilizar-se de vários meios para sua manifestação, em especial, ela se exprime na música, na literatura, no cinema, na dança, nas artes visuais, como pintura, a escultura, o desenho, etc. A nova universalidade da arte é a invenção de uma forma original de resultado de idéias no mundo material tal como é. Como a arte imita a vida, paráfrase do filósofo Aristóteles cuja frase dita foi: “a arte imita a natureza” (Aristóteles, CW, 145. Apud. D. K. YEE, Cordell), ele foi sábio em sua afirmação, pois a palavra “natureza” quer dizer: o lugar de onde tudo nasce. Por conseguinte, a arte imita a origem de todas as coisas, é uma vivificação e uma semicópia do real. Ela representa a própria realidade, ainda que não fiel, é uma tentativa valorosa de unir o homem ao mundo, e conseqüentemente de conectá-lo a si mesmo.

De acordo com Almeida, Aires, vários filósofos se referiram à arte como imitação.  Platão não se aprofundou na filosofia da arte, mas com sua teoria das idéias e das formas, contribuiu para ilustrar que os conceitos abstratos como beleza, amor, arte, enfim, tudo o que existe, são absolutos, eternos e perfeitos, porém existentes apenas em outra dimensão. A arte humana, como está inserida no mundo concreto percebido pelos sentidos, e portanto, imperfeito, é uma tímida reprodução desse mundo essencialista e perfeito. Como explanou Ariano Suassuna, Platão justifica que a alma humana já vivenciou esse mundo idealizado e que a faculdade de desenvolver virtudes tais como: artes, sabedorias e beleza, aqui na terra, vêm das meras reminiscências, memórias desse outro mundo. Contudo a alma sofre pelas recordações, saudades, vivendo em eterna busca desse mundo idealizado, porém num mundo imperfeito e incompleto. Eis um texto de Platão o qual se refere a essa reminiscência:

 A alma é imortal. Renasceu repetida vez na existência e contemplou todas as coisas, existentes tanto na terra como no Hades, e por isso não existe nada que ela não conheça. Não é de espantar que ela seja capaz de evocar a memória a lembran­ça de objetos que viu anteriormente e que se relacionam tanto com a virtude quanto com as outras coisas existentes. Toda a natureza, com efeito, é uma só, é um todo orgânico, e o espírito já viu todas as coisas. Logo, nada impede que, ao nos lembrar­mos de uma coisa (o que nós, homens, chamamos de saber), todas as outras coisas ocorram imediata e maquinalmente é nossa consciência. A nós, compete unicamente o esforço, a procura sem descanso. (PLATÃO, “Mênon”, oh. cit., 81, p. 79. Apud. SUASSUNA, Ariano).

A arte ostenta e manifesta sentimentos profundos. É uma das performances humanas mais sublimes e elevadas, é a experiência intima com o espírito universal. É um encontro com o sobrenatural aproximando-se da divindade. Segundo o senso comum, a verdade da arte é transcendental, concebendo-a como uma inspiração divina. Realmente, ela é um atributo da alma, portanto, não facilmente decifrável. É a tentativa humana de se aproximar a perfeição original criada por Deus. A arte é um caminho que transporta os sonhos para o mundo. É a procura e anseio pela elevação dos sentidos e aprimoração do ego. A arte pode ser universalizada ao representar o “amor” em si.

 A natureza da arte, por si mesma, implica em contemplação, tem a faculdade de suscitar sensações de bem-estar. É o gozo e êxtase da contemplação. A arte é a busca incessante por perfeição, beleza, paz e tranqüilidade, pois o ideal, a medida proporcional que traz harmonia nos inquieta e instiga pela busca da felicidade. É o culto dos sentidos, e estes precisam ser desenvolvidos e aguçados para se aproximar da beleza e verdade artística. De acordo com autor Ariano Suassuna, como Platão acreditava que a alma já conhece a perfeição e o absoluto, ela tenta trazê-la a esse mundo. Pois a terra é apenas um reflexo do mundo das essências. E reconhecendo a decadência do mundo terrestre, ele conclui que uma alma elevada preza as virtudes eternas como, sabedoria, generosidade e outros, já que esses não sofrem a limitação e declínio do tempo terrestre. No texto seguinte do “Fedro”, Platão se refere ao deleite e à virtude da beleza sinalizando à sensibilidade da contemplação e às importâncias das virtudes eternas:
 

Quanto à beleza, já te disse, ela brilhava entre todas aquelas Idéias Puras, e, na nossa estada na terra, ela ainda ofusca com seu brilho todas as outras coisas. A visão é, ainda, a mais sutil de todos os nossos sentidos. Mas não poderia perceber a sabedoria. Despertaria amores veementes, se oferecesse uma imagem tão clara e distinta quanto aquelas que podíamos contemplar para além do céu. Somente a beleza tem esta ventura de ser a coisa mais perceptível e elevadora. (PLATÃO, “Fedro”, ob. cit. p. 223. Apud. SUASSUNA, Ariano).     

 
De uma maneira mais técnica, pode-se dizer que a verdade artística é diferente da verdade cientifica, política e de outros tipos de verdades. A melhor definição é que a verdade artística sempre envolve a sensibilidade, a intuição, os sentidos; é um esboço do sensual. Uma verdade artística não é uma cópia exata do mundo material, nem uma sensível expressão estática. É uma experiência sensorial e inventiva, é um conhecimento humano sensível-cognitivo, o qual objetiva despertar a apreciação estética e artística, levantando reflexões sobre sua história e contexto na sociedade humana. Desse modo, a arte funciona como um transporte de comunicação, conscientização e sensibilização de conhecimento genérico.

Segundo o livro Reflexões sobre a arte, a arte é um conhecimento humano articulado ao âmbito do sensório-cognição, através dela se expressam significações, emoções, sensibilidades, tipos de criação sobre o mundo da natureza e cultura. Uma verdade artística concerne tanto ao campo da sinestesia (as sensações) como do abstrato (idéias): uma breve referência à teoria platônica; sendo também, um evento e processo cognitivo de pensamentos pertencentes a uma esfera idealista que constantemente tenta tomar forma no mundo físico. A arte é um empreendimento de recriação e compreensão do mundo por meio dos sentidos, mas um pouco mais diferente do processo laborioso e intricado que empenhamos ao recorrer pela lógica racional. Não obstante, acredita-se que a arte caminha atrelada à lógica e à simetria.

Geralmente, como uma obra de arte requer um contato com os sentidos e conseqüentemente solicita uma transmissão, a arte é particularmente considerada pelos aspectos estéticos e comunicativos, visto que é tendenciosamente uma troca e permuta entre a obra e o espectador. A essência da arte é sempre relacionada ao admirável, harmônico e estético. Conforme o autor Ariano Suassuna, derivado do grego, a palavra “estética” significa “sentir” e envolve um conjunto, uma rede de percepções que existem nas várias práticas e conhecimentos humanos direcionados ao bom e belo. A estética se designa às sensações sensíveis que causam prazer, ao gosto e a volição, às criações pertinentes ao campo do subjetivo, que diferentemente da lógica racional do pensamento, se apresenta livre de regras mais ou menos estabelecidas. Entretanto, a estética segue uma ordem que equipara e delimita a harmonia geral.

Sendo assim, a experiência estética humana estende-se a várias esferas de sua existência, de seu entendimento, sua identidade, e finalmente no humanizar-se; provendo deleite, comovendo as pessoas e levando-as a refletir sobre as suas vidas, porém, ela sempre obedece a certos princípios e normas que determinam o que é agradável. A arte é um prazer instituído pela relação de complemento e plenitude do interno com o externo, do eu e o outro, quando o sujeito e o objeto se integram em uma fusão de harmonia e apreciação. Entretanto existem pessoas que relatam não haver interesses e feições pela arte e nem por quaisquer movimentos relacionados a mesma, mas o que essas pessoas não enxergam é que ela não se restringe a pinturas ou esculturas, há um vasto universo da arte, e essas pessoas podem se informar e descobrir sobre cada uma delas procurando encontrar a que melhor se adéqua aos seus critérios e percepções de arte.

Toda criação artística, uma obra de arte é o resultado da genialidade do homem. É um feito do homem, é o fruto da ilustre inteligência que a raça humana é dotada. Ao se aprofundar na filosofia da arte, é possível ir mais além, deparando-se com o antigo mistério, quando se remonta a anedota do ovo e da galinha, nesse caso, quem vem primeiro? A arte ou o artista? É comum se inferir que a arte é a obra do artista, dessa maneira, reduze-se a arte ao arbítrio do ego. No entanto, não se dá conta que: se quem cria a obra é o artista, por sua vez, é a obra de arte quem cria o artista. Há uma relação de interdependência, pois não há poeta sem poesias, pintor sem pinturas, cantor e músico sem canções, escultor sem esculturas, ator sem espectadores, etc. Assim sendo, na mesma medida em que se diz que o artista é quem cria a obra, é a obra quem revela que o artista é artista.

 É fundamental compreender que uma verdade artística é um rascunho do mundo palpável, que por sua vez, é uma tentativa de reprodução do mundo das idéias e das formas. É uma proposição sobre uma nova definição do que é nossa relação de percepções com o mundo. No entanto, se arte parece ser tão significativa hoje, é porque a influência da globalização e do capitalismo nos impõe a criação de um novo tipo de universalidade, a qual é sempre uma nova sensibilidade e uma nova relação intuitiva com o mundo. Como a arte evolui com o tempo, ela também promove mudanças profundas em valores, conceitos e práticas, mantendo a sua presença.

 Por causa da pressão do capitalismo que existe hoje, a dominação da universalidade abstrata, é necessário pensar em arte direcionando-a à vinculação sensível e atual do mundo servindo de alerta sobre a qualidade de nossas vidas e como podemos expressar-la melhor. Desse modo, atualmente, a criação artística faz parte da emancipação humana; não é um ornamento nem uma decoração. O oficio da arte é uma questão central na história da humanidade, porque requer uma atual percepção conectada a todo o cosmos.

Mediante todas essas virtudes da arte, cabe ao homem dispor-se dela em seu benefício. A vida sem a arte seria vazia e limitada em matéria, seria um espaço oco, sem essência e sentido, a arte é alimento da alma, é o combustível que dá vida e conduz toda a humanidade. De fato, sem a criação artística, o triunfo do poder forçado e universalização do dinheiro, pode ser uma real possibilidade. A arte pode ser uma oportunidade legítima de criar algo novo em detrimento da universalidade abstrata chamada de capitalismo.
 
                                                                                                           Pedro Samuel de Moura Torres

 

REFERÊNCIAS

 

 

 

BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros Curriculares Nacionais: 1.ª a 4.ª série – Introdução. Brasília: MEC/SEF, 1999, v. 1. 360 pg. CONHECIMENTO de arte. pg. 168 à 181. ______. Reflexões sobre a arte. São Paulo: Ática, 1985.

SUASSUNA, Ariano. Iniciação a Estética. 8º Ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007, (p.g. 43-49) 

DI LUCIA, Reinaldo. Sócrates e Platão: precursores do espiritismo?  São Paulo, 2001. Disponível em: <<www.cpdocespirita.com.br/Trabalhos/Socrates_e_Platao_Reinaldo.pdf>>Acesso em 09 nov. 2010.

Bruno. O que é a arte? A arte. 2005. Disponível em: <<www.fictionpress.com/s/2005723/1/O_que_e_a_arte>> Acesso em 09 nov. 2010.

FERREIRA, Aurélio B. de Holanda. Novo Aurélio: o dicionário da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999. 205p.

ALMEIDA, Aires. Teoria essencialista da arte. Disponível em: <<fildalinguagem.no.sapo.pt/aires.pdf>> Acesso em 10 nov. 2010

SUASSUNA, Ariano. Teoria Platônica da beleza. Disponível em: <<www.educacional.com.br/upload/blogSite/5038/5038224/9105/teoria%20platonica%20da%20ideia.suassuna.RTF>> Acesso em 11 nov. 2010